restos à mesa

é sempre muito mais fácil
entregar o pior que se espera
em baixas expectativas
desilusões não se geram
em um nível inferior
é aonde eu me garanto
não sou bom o tempo todo
e essa armadura
vale as falas e o pranto

reservo meu bom à mim
porque é difícil sustentar
poucos me conhecem
com minha melhor face a mostrar
nem anos de criação
escapam da minha apuração
o duro eterno da decepção
para mim é sobremesa
eu nunca pedi perdão
por colocar meus restos à mesa

não é sobre merecimento
veja bem, não sou tão baixo
é que tudo é tão passageiro
vem e vai sem deixar rastro
não mantenho, não prometo
a premissa é simples,
de resto só lamento
é mais sobre ser grosseiro
e a fluidez do ato
é sobre fazer esperar algo
que não vai durar muito tempo
e até você tentar provar
eu já me fui há muito tempo

probabilidade

possível
não é provável, marreco
e tudo o que ela
poderia ter sido
me assombra
sua voz que nunca ouvi
faz eco
o plausível
me faz de otário
e o mundo ao revés
é martelo
meu corpo, prego
se eu soubesse rezar,
rezaria
pela minha alma em revelia
que não conhecerá os céus
nem as suas regalias
e em condição de condenado
faço estrago
afinal por que pagar tanto
por só um pecado?
desfruto do fruto que
eva comeu
e com seu peso, me envergo
mas sustento
a culpa que não me cai
me assusta
mas é algo não me cabe
e isso as vezes me deslumbra.

poesia impressionista III

é o sol
no fundo do copo
e tentando alcançar
eu me afogo.
como brilha e me atrai
o calor fervendo o líquido
bebo, bebo, bebo
e não me satisfaz.
eu vou até não aguentar mais
nessa sede infinita
que cada vez mais se agiganta
e nunca se finda
até cair na madrugada
copo vazio, mão gelada
jamais satisfeita,
jamais saciada
apenas… cansada
estrupiada da bebedeira,
lombrada da manguaça
quando o sol se levanta
trazendo junto a ressaca
e o mundo explode
o norte vira o sul,
dou bom dia para a morte
tudo se revolta e tudo se revolve,
tudo se revira e tudo se resolve
e tudo é sempre nada
tudo é sempre o sol
no fundo do copo
que tentando alcançar,
todas as noites me afogo.

poesia impressionista II

era um barulho seco
esturricado
como unha arranhando o quadro
negro
como a noite – enorme
que as vezes engole,
as vezes só envolve.
o luxo que se reserva
aos poucos que dormem
e aqui eu fico
como rato na lata de lixo
reviro pensamentos
e em meio à fumaça
sentimento
de completude
em um vislumbre
e por mais que a noite
me deslumbre
conto as horas que avançam
para o amanhecer,
para o sol que nasce,
para o saber e o conhecer
de um mundo selvagem
que eu nunca vou chegar a ver.

jogo de palavras

gosto daqueles dias que
somos palavra em letra cursiva
não se sabe onde começa um
e onde o outro termina

intercalando nossas
consoantes e vogais
você, eu, você, eu
até não dar mais

mas sempre dá mais um pouquinho
só pra sua língua dar voltas
e conhecer o idioma
em que apresento minhas linhas tortas

oração de joelhos
só verbos, sem sujeitos
porque nós já sabemos
o faça, o faz, e assim, fazemos

pronome de possessão,
tendo você em minhas mãos,
já não preciso afirmar nada,
só aprender as sutilezas
desse jogo de palavras

poesia impressionista I

meu deus de amanhã
já não é o mesmo de ontem
então, louvem
enquanto ainda é tempo
uma vez em posição de deus
com pouco não me contento,
bicho esperto.
não quero oração,
não quero apelação,
eu quero direto e reto
gosto mesmo é do concreto,
meu altar é de asfalto
minha oferenda:
a sola gasta do sapato
minha oferta:
paz aos nossos
e entre os escombros e destroços
a nascente,
um rio que avança forte
na direção do poente.

ossos de vidro (sobre expectativas)

Sempre tive problemas para quebrar expectativas. Talvez porque, para mim, desde pequena elas sempre foram fáceis de atender e eu sempre o fazia com tanta maestria que ensinei sem querer as pessoas a sempre esperarem mais e mais. E eu sempre consegui dar tudo o que esperavam, mas chega uma hora que isso cansa. Chega uma hora que meio que nos esquecemos para nos encaixar onde o outro acha que nos cabe porque quebrar essa expectativa doía.

Chegou uma hora que tinha tantas versões diferentes de mim, pensadas para agradar diferentes pessoas que eu simplesmente me esqueci de quem eu era.

Eu nunca soube lidar com a rejeição, com o desgostar. Isso pra mim sempre foi o fim do mundo, tanto que eu me desdobrei e passei a vida esquetando a cabeça para agradar e ser gostada por tanta gente que eu esquecia de gostar de mim. Admirava em segredo todos que tinham a coragem de ser o que eram e impor isso aos outros sem medo.

Porém, fui aprendendo a lidar com isso, e ainda estou aprendendo. Percebi o quanto eu perdia por puro medo de causar desagrado. E fui desapegando disso. Foi e ainda é doloroso e desagradável esse processo, mas aprendi a gostar de mim muito mais nesse meio tempo e também fui percebendo como os “gostares” e as admirações se tornam mais sinceros.

É meio errado me basear na forma como terceiros fazem eu me sentir para poder me sentir mais segura comigo, porém esse acabou sendo o pontapé inicial para que eu conseguisse me reconhecer. Quando percebi que era gostada sem esforço, simplemesnte por ser eu, e que era muito mais fácil e mais feliz ser assim, fui pegando gosto pela coisa e eu era cada dia mais eu. Hoje em dia quase gosto de ser desgostada.

As dificuldades em lidar com a quebra de 19 anos de expectativas acumuladas foi um baque, porém me sinto forte para aguentá-lo, pois sei que vale a pena. É por mim que estou lutando. É por mim que venho dando a minha própria cara à tapa e isso é maravilhoso. Cada dia mais eu amo ser eu, e amo amar isso. Amo amar esse processo, essa fase. Espero não esquecer esse sentimento quando estiver passando por outras fases ruins, que eu sei que virão. Mas não sou tão frágil como me fiz acreditar, nem tão durona que não possa vacilar.

Ja diziam Los Hermanos, e o que eu sou é também o que eu escolhi ser, eu aceito a condição.

“Então, minha querida Amélie, não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. Se deixar passar essa chance, com o tempo seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto. Então, vá em frente, pelo amor de Deus.”

O fabuloso destino de Amelie Poulain

condenação

naquela noite sentei na cadeira fria, frente a frente com meu maior inimigo. finalmente olhei o maldito dentro dos olhos e ele não teve nem a decência de parecer culpado. o safado me sorriu. a raiva me subiu, quente. éramos eu e ele e o fogo me queimando a garganta. deixei-o sair. acusei o maledicente de tudo o que me veio a mente, apontei todos os erros que ele cometeu em seus ditos planos infalíveis, desfiei o rosário de seus crimes ali mesmo, sem dó nem piedade. a pose petulante não abaixou, mas seus olhos agora demonstravam medo e culpa, um animal assustado com a própria natureza brutal. eu ja me sentia leve, quase sereno, quase curado da minha onda abrupta de ódio intenso. quis cuspir em sua face. não o fiz. respirei fundo. quando fiz menção de levantar da cadeira fria, ele imitou meu movimento, como se o canalha tivesse algum direito à liberdade! olhei atentamente. cheguei perto. mais perto. o olhar impassível era agora também curioso. sorria triunfante, como se eu houvesse deixado passar algum detalhe crucial que só ele soubesse. percebi então que eu me encontrava de frente para um espelho. e aquele era meu maior inimigo, um criminoso sujo e perigoso. sujeito mau caráter e desprezível.

mas como condená-lo?

o mundo por trás dos vulcões

por léguas tiranas
trevas me dizem quando
por milhas insanas
movida à euforia, eu ia
pela décima quarta hora do dia
para explodir e expandir e queimar
demarcar todo o caminho
que me levei a trilhar
e comigo arrastar
vida, cor e até água
na corrida desabalada.

por léguas tiranas
trevas me dizem onde
dominam meus instintos,
escapam do próprio controle
e queimam
lavando com lava
levando sem pausa
o mundo à tiracolo
a se incendiar
pra se solidificar
quando finalmente encontrar o mar.

por léguas tiranas
trevas são o guia
e tudo que vigia
consegue sentir
o que está para chegar
a fúria que grita,
a urgência de se alastrar
e o constante queimar
no eterno instante
que a chama líquida
tem para se espalhar.

por léguas tiranas
trevas ficam para trás
e não há nada,
nada mais
que salve as cinzas, a melancolia
lá pela vigésima hora do dia
quando tudo enfim se acalma
o calor se esvai, se dissipa
e o mundo todo esfria
em um suspiro aliviado
quando eu me canso de inflamar.

por léguas tiranas
trevas anunciam
um cessar fogo
e então, tudo pode descansar.

retrovisor

objetos no espelho
estão bem mais próximos
do que aparentam estar
meus sentimentos no texto
são coisas das quais
não consigo me distanciar.
quando menos espero,
tudo me invade
e a ferida dada por curada
arde, arde e arde.
e eu peço alguma serenidade
pra transformar a dor em arte.
mas será arte o que eu faço?
transformo o transtorno,
moldo o meu choro
preencho o espaço,
junto tudo o que sinto com um laço
na verdade, um emaranhado
com esse meu tosco palavreado
e amo
afinal, o que me resta?
nesse ponto da existência,
pouca coisa concreta
no que me agarrar
perco até o ar
e esqueço como respirar
e então, um alívio no desespero
no nó que me aperta a garganta,
me lembro que eu escrevo.
novamente, vejo
e respiro,
inspiro
lembro que as palavras são como ouro
e me vejo novamente
frente a frente
com o meu mais precioso tesouro.